Quantas vezes percebemos que passamos horas olhando para o celular, sem saber muito bem o que estávamos vendo? E quantas vezes ficamos esperando para saber quantos likes ou comentários chegaram na última foto que publicamos? A dopamina em versão digital domina e a sucessão de estímulos constantes que as redes sociais nos proporcionam está reprogramando nosso cérebro. Mas há formas de controlá-lo.
A dopamina é popularmente conhecida como o “hormônio do prazer”, mas sua função biológica vai muito além disso. Ela é o que nos impulsiona a repetir comportamentos que nos recompensam. E isso nem sempre é ruim, já que precisamos disso para viver.
O problema, como explica Juan Manuel Felices, médico espanhol e divulgador científico, é que substituímos o esforço real por uma “embriaguez de dopamina digital”.
Cérebro hackeado
O circuito de recompensa do cérebro funciona sob uma lógica de custo-benefício. “Para conseguir aquele ‘pico’ de dopamina, precisávamos ajudar alguém, fazer um treino ou passar em uma prova”, explicou o médico ao portal Infosalus, e acrescentou que o prazer vinha depois do esforço.
No entanto, atualmente esse mecanismo foi “hackeado”. O cérebro não distingue entre a satisfação de uma conquista pessoal trabalhada e a gratificação instantânea de um like em uma tela. “O problema agora é que o maior fluxo de dopamina vem das redes sociais”, alertou o especialista.
O custo disso não é visível, mas é sentido no dia a dia: a perda de motivação. Ao obter recompensas químicas 'baratas' e sem esforço, o cérebro perde o interesse em atividades que exigem mais esforço e constância, como aprender um idioma, ler um livro ou conversar com outras pessoas.
“Essa maneira de receber dopamina nos predispõe a não realizar aquelas atividades que antes nos davam prazer e nos faz ter menos vontade de fazer atividades que também são benéficas para a saúde”, criticou o especialista.
Em resumo: nos tornamos menos propensos a buscar benefícios a longo prazo porque estamos saturados de prazer imediato.
A depressão e a fadiga mental
Aos efeitos devastadores que a falta de motivação gera na vida das pessoas, soma-se outro: diante da inundação de dopamina, o cérebro tenta se equilibrar e aplica mecanismos de freio. “É como ouvir música no volume máximo: no início é emocionante, mas com o tempo seus ouvidos se tornam menos sensíveis e você precisa aumentar tanto que no final nem ouve mais”. Em termos neuronais, isso se traduz em apatia e uma menor satisfação com a vida.
Os dados são alarmantes, especialmente para os mais jovens. Segundo o Infosalus, adolescentes que passam mais de cinco horas por dia nas redes sociais têm até três vezes mais chances de sofrer depressão do que aqueles que as usam com moderação. E em adultos, dedicar muitas horas à Internet ou às redes “está consistentemente associado a uma menor satisfação com a vida”, acrescentou.
Além disso, o multitarefa, frequentemente vendido como uma virtude da era digital, é na verdade “exaustivo para o nosso cérebro” e reduz a qualidade de tudo o que fazemos.
10 chaves para a 'desintoxicação digital'
A boa notícia é que esse processo é reversível. Não se trata de eliminar a tecnologia, mas de recuperar o controle. Baseado nas recomendações do Dr. Felices em seu livro “Radiografia de uma vida saudável”, aqui está um roteiro para 'resetar' seu cérebro:
- El baño es zona sagrada: Evita llevar el teléfono contigo al baño. Es el primer paso para romper la dependencia.
- Contacto humano real: Nada sustituye la calidad de la dopamina que genera un abrazo o una charla cara a cara.
- Regla del sueño: Pantallas fuera entre 30 y 60 minutos antes de dormir para no alterar tu descanso.
- Mañanas analógicas: No empieces el día con luz artificial. Postergar el uso del teléfono los primeros minutos de la mañana.
- Notificaciones en cuarentena: Silencia todo, salvo las llamadas de personas realmente importantes.
- Monofocalización: Realiza una sola cosa a la vez. Evita la “segunda pantalla”.
- Escala de grises: Configura tu pantalla en blanco y negro. Al eliminar los colores vibrantes, las apps pierden su atractivo hipnótico.
- Placeres lentos: Recupera actividades de “dopamina lenta” como cocinar, andar en bicicleta o leer en papel.
- Planifica las dosis de dopamina: Define franjas horarias específicas para revisar redes, en lugar de hacerlo por inercia todo el día.
- La regla 1:1: Por cada hora de ocio digital, dedicar una hora a una actividad en el mundo real.
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