A aposentadoria costuma ser vista como uma das etapas mais esperadas da vida, pois marca o fim de décadas de atividade laboral. No entanto, para a coach especializada em transição para a aposentadoria Silvia Munné, essa mudança exige preparação e uma visão diferente sobre o futuro.
Em uma entrevista concedida ao jornal barcelonês La Vanguardia, a especialista espanhola questionou a associação automática entre aposentadoria e velhice e sugeriu que essa etapa pode se tornar uma oportunidade para desenvolver novos projetos e objetivos pessoais.
Segundo explicou, uma pessoa entre 60 e 65 anos pode "ter perfeitamente 20 ou 25 anos pela frente com capacidade física, mental e emocional para desenvolver projetos", por isso considera um erro ver a aposentadoria como "a antessala do apagão".
Para Munné, grande parte do desafio está na atitude com que se enfrenta essa nova etapa. "Se você diz a uma pessoa que o que vem é uma espécie de epílogo, ela se apaga", apontou. Em contrapartida, quando se compreende que se trata de um período prolongado e com múltiplas possibilidades, "a visão muda completamente".
A especialista alertou que a aposentadoria implica transformações profundas, já que "rompe rotinas, rompe dinâmicas, rompe identidades". Em sua opinião, a sociedade também não prepara adequadamente as pessoas para enfrentar essa etapa, apesar de sua importância. Nesse sentido, alertou que "se você não diferencia uma segunda-feira de um domingo, uma manhã de uma tarde, o tempo se dilui".
Munné afirmou que "a responsabilidade final é individual, mas a sociedade não fez um trabalho preventivo". Além disso, lamentou que não existam "espaços públicos suficientes" destinados a acompanhar aqueles que passam pelo processo de aposentadoria, uma carência que, segundo ela, acaba gerando custos tanto pessoais quanto coletivos.
A especialista resumiu sua posição com uma frase contundente: "Preparamos as pessoas para trabalhar 40 anos, mas não para viver os 25 seguintes".
"Lo que no se trabaja antes, luego se paga en forma de soledad"
Munné também defendeu a criação de "espaços públicos de acompanhamento", bem como o acesso a informações sobre o impacto econômico da aposentadoria e a instâncias de educação emocional e financeira antes que esse momento chegue.
"Eu introduziria uma prevenção real", afirmou, ao mesmo tempo que considerou fundamental "não esperar que a pessoa já esteja aposentada e desorientada". Nesse sentido, lançou um alerta: "O que não se trabalha antes, depois se paga em forma de solidão, medicação e deterioração".
Além disso, propôs a necessidade de mudar a forma como a sociedade aborda essa etapa da vida, sugerindo "parar de tratar a aposentadoria como uma retirada e começar a vê-la como uma etapa com identidade própria". Em sua opinião, isso permitiria evitar a perda de talento, experiência e capacidades que muitas pessoas aposentadas ainda podem oferecer.
Por fim, recomendou começar a se preparar com antecedência e não esperar até o último dia de trabalho "para se perguntar quem quer ser quando deixar de trabalhar". Também sugeriu começar "a construir interesses próprios, redes sociais e projetos".
"Que observem como querem organizar seu tempo quando já não tiverem uma estrutura imposta e que revisem sua situação econômica com realismo, sem medo, mas sem autoengano", concluiu.
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