Rosana Malvido escreveu Abraça teu corpo a partir de um desconforto íntimo, mas também coletivo: a dureza com que muitas mulheres aprendem a olhar para o próprio físico desde pequenas. Em diálogo com este meio, a autora argumenta que o vínculo com o corpo não pode ser pensado fora da história pessoal, dos mandatos familiares, das experiências emocionais e dos sistemas sociais nos quais cada uma cresce.
Longe de oferecer receitas rápidas ou slogans fechados, Malvido propõe um convite ao autoconhecimento. Em seu livro convivem a experiência pessoal, leituras, exercícios e perguntas sobre a fome emocional, os vínculos com a comida, as marcas do trauma e a forma como o julgamento sobre o peso condiciona a vida afetiva, social e amorosa.
Seu ponto de partida não é nem a romantização do sobrepeso nem a defesa de uma visão médica padronizada. O que busca, segundo ela, é “observar”: entender por que um corpo engorda, o que tenta expressar, que memórias guarda e de que forma pode começar a ser visto com menos crueldade e mais amor.
O título, Abraça teu corpo, já diz muito. Assim que ouvi, pensei na distância que costumamos ter do abraço, do corpo e na dureza com que tratamos nosso físico por anos. De onde surge essa ideia?
Exatamente. Este livro nasce de uma observação pessoal. Em algum momento da minha vida, comecei a perceber o quanto tinha sido dura com meu corpo, que foi tão generoso comigo em todos os sentidos. Então, este é um convite. Não digo que devemos nos aceitar incondicionalmente, porque acho que estou longe disso; ainda me pego em situações nas quais não há aquele amor que almejo. Mas acredito que a meta é avançar um pouco mais em direção ao autoconhecimento e ao amor-próprio.
São uma ferramenta que permite ver uma situação do presente levando em conta o contexto. Somos parte de muitos sistemas e o principal é o familiar, porque é ali que aprendemos os valores, a ideia de mundo, sentimos o apego, as feridas da infância. Tudo isso nos marca por muito tempo. Então, quando uma pessoa traz um problema do presente, o que vemos é qual é o impacto da família ou de outros fatores nessa situação, o que está impedindo que ela tenha uma resposta criativa diferente. É aquilo que muitas vezes as pessoas dizem: “Sempre escolho o mesmo tipo de parceiro”, “Sempre acontece a mesma coisa comigo”. Bem, o que há ali?, que lealdade está por trás?
Aí também aparece um medo frequente: o de usar a família para distribuir culpas.
Sim, claro. Mas se a metodologia for bem usada e o constelador bem formado, a constelação passa por várias etapas. Primeiro, poder ver o problema em nível inconsciente, o que chamamos de “ponto cego”: a quem a pessoa está sendo leal ou onde começou o problema em nível sistêmico. Pode aparecer uma mãe, por exemplo. O primeiro sentimento instintivo é culpá-la. Mas o passo seguinte é compreender que essa pessoa também é um elo de um colar e que nós temos a possibilidade de estar no aqui e agora e fazer algo novo com isso. Se fizermos uma consideração responsável e completa, a pessoa não sai distribuindo culpas.
Uma pessoa uma vez me disse: “Antes gorda, morta”.
E esse olhar volta ao tema do sobrepeso?
Sim, totalmente. A família tem muito a ver, e também a sociedade e o estrato social. Veja que há lugares onde ser gordo é fantástico e outros onde ser gordo é o pior. Uma pessoa uma vez me disse: “Antes gorda, morta”. E pensei: “Que forte o que você está dizendo, ouça-se”. Isso me impactou muito. E ela me respondeu: “Olha que muita gente pensa assim”. Então você entende que há um mandato muito profundo.
Nessa linha, hoje surgiram novos medicamentos para emagrecer e um discurso muito forte em torno de uma possível solução rápida.
Sim, e aí é preciso ir com calma. É como essa ideia de ir ao médico buscar a pílula mágica. Surge outro conceito, que é o pensamento mágico. Estou com dor de cabeça, tomo um analgésico e já não dói, mas sem me perguntar o que fez com que doesse, qual é a tensão, qual é a necessidade do meu corpo, o que estou negando. Então, além de tomar esses medicamentos ter consequências e não ser algo inofensivo — está à vista, já há provas de muitas situações físicas em consumidores —, acho que estamos mais do mesmo. A dieta mágica é apenas mais um produto que alimenta uma indústria multimilionária.
Para encerrar, voltemos ao início: ao abraço. O que seria se abraçar, concretamente, nesse contexto?
Acho que tem a ver com podermos nos olhar com mais amor. Nosso corpo responde aos estímulos. É tão equilibrado, tão natural. Quando você bate em um músculo, o músculo inflama: é natural. Então me pergunto de que forma nos golpeamos tão duramente para precisar de corpos que ocupem espaço, que sejam vistos. Isso é complexo de dizer, mas é importante que se saiba. Em um dos livros que cito, O corpo guarda as marcas, de Bessel van der Kolk, o autor menciona estudos sobre trauma muito impactantes. Então eu me pergunto: como são os corpos dessas vítimas, se esses corpos não precisam perder sensualidade para afastar os perpetradores ou se tornar maiores para absorver esses impactos. Não tenho uma resposta fechada. Sim, tenho muitas perguntas. Algumas encontrei através da minha própria vivência, e acho que cada um, fazendo boas perguntas, pode encontrar boas respostas.
O livro
Um guia emocional e prático para se reconciliar com seu corpo e construir uma relação amorosa consigo mesma.
Em Abraça teu corpo, Rosana Malvido Giosa oferece um percurso sensível e profundo pelo vínculo que mantemos com nosso corpo. A partir de sua experiência como coach, consteladora e acompanhante emocional, ela convida a revisar as ideias herdadas sobre beleza, peso e valor pessoal.
Com uma linguagem clara, calorosa e empática, a autora propõe exercícios de reflexão, relatos pessoais e ferramentas práticas para curar a relação com o corpo e a autoimagem. O livro combina narrativa íntima e guia de bem-estar com o objetivo de ajudar as leitoras a aceitar sua história, reconectar-se com suas emoções e abraçar seu próprio processo de mudança.
Editora: *Grijalbo*