Contenido creado por María Noel Dominguez
Conteúdo em português

Fala-se sobre o corpo.

Rosana Malvido: “Não quero romantizar a gordura, mas compreender o corpo”.

22.03.2026 08:00

Lectura: 12'

2026-03-22T08:00:00-03:00
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Por María Noel Domínguez



Rosana Malvido escreveu Abraça teu corpo a partir de um desconforto íntimo, mas também coletivo: a dureza com que muitas mulheres aprendem a olhar para o próprio físico desde pequenas. Em diálogo com este meio, a autora argumenta que o vínculo com o corpo não pode ser pensado fora da história pessoal, dos mandatos familiares, das experiências emocionais e dos sistemas sociais nos quais cada uma cresce.

Longe de oferecer receitas rápidas ou slogans fechados, Malvido propõe um convite ao autoconhecimento. Em seu livro convivem a experiência pessoal, leituras, exercícios e perguntas sobre a fome emocional, os vínculos com a comida, as marcas do trauma e a forma como o julgamento sobre o peso condiciona a vida afetiva, social e amorosa.

Seu ponto de partida não é nem a romantização do sobrepeso nem a defesa de uma visão médica padronizada. O que busca, segundo ela, é “observar”: entender por que um corpo engorda, o que tenta expressar, que memórias guarda e de que forma pode começar a ser visto com menos crueldade e mais amor.

O título, Abraça teu corpo, já diz muito. Assim que ouvi, pensei na distância que costumamos ter do abraço, do corpo e na dureza com que tratamos nosso físico por anos. De onde surge essa ideia?

Exatamente. Este livro nasce de uma observação pessoal. Em algum momento da minha vida, comecei a perceber o quanto tinha sido dura com meu corpo, que foi tão generoso comigo em todos os sentidos. Então, este é um convite. Não digo que devemos nos aceitar incondicionalmente, porque acho que estou longe disso; ainda me pego em situações nas quais não há aquele amor que almejo. Mas acredito que a meta é avançar um pouco mais em direção ao autoconhecimento e ao amor-próprio.

No livro aparece algo muito reconhecível para muitas mulheres: ir a um profissional e receber uma dieta padrão, quase igual para todas, sem levar em conta idade, história ou estilo de vida.

Esse é o risco de generalizar. De qualquer forma, aos poucos há uma maior conscientização. Meu convite, e também a mensagem do livro, tem a ver com nos questionarmos como mulheres e questionarmos os sistemas dos quais fazemos parte. Felizmente, hoje quase podemos escolher com quais especialistas trabalhar e com quais não. Há profissionais que estão pensando fora da caixa e que não veem um corpo sem contexto. Porque a pessoa não vem apenas com um corpo gordo, vem com história, com sentimentos, com experiências que a atravessam. Então, a pergunta é por que as dietas não funcionam. Precisamos começar a nos fazer essa pergunta.

A pessoa não vem apenas com um corpo gordo, vem com história, com sentimentos, com experiências que a atravessam.

Há uma ideia que no discurso parece mais combatida, mas na prática ainda está viva: a do corpo hegemônico. Mesmo quando há campanhas que tentam mostrar algo diferente.

Não, essa dívida não está quitada. Acho que somos hipócritas. Quando este livro foi lançado, eu tinha a ilusão de que teria um alcance maior, que se falaria mais sobre essa mensagem, que teria outra repercussão na mídia, e a verdade é que apenas um punhado de veículos abriu as portas para falar sobre isso.

O livro traduz conceitos gerais em cenas concretas. Por exemplo, a fome emocional. Você mostra muito essa sequência de ação e reação: algo acontece, surge o impulso de comer, buscamos um chocolate, algo doce, algo gostoso.

Sim e não. Nós sempre comemos com emoções, nem sempre por fome. Felizmente, em nosso país e na maioria dos países próximos, não vivemos a fome como em outros lugares onde as pessoas realmente passam fome e morrem de fome. Então, não estamos tão acostumados a sentir fome: normalmente comemos antes de senti-la. O alimento e a emoção andam de mãos dadas. O alimento não é apenas alimento. Um chocolate é muito mais do que um chocolate. Um churrasco não é apenas um churrasco. Ele nos remete à experiência que tivemos com aquele alimento.

E aí também aparece o seu olhar sistêmico.

Claro. Não posso evitar meu olhar através das constelações e outras abordagens. Não posso esquecer que somos seres mamíferos que nascemos e que, diante da primeira necessidade, que é de apego e alimento, fomos alimentados por uma mãe. Esse vínculo nos atravessa por toda a vida. Foi nutritivo ou não foi? Faltou? De que maneira a mãe supriu com alimentos o que não pôde nos dar afetivamente? E muitas vezes, falo como mãe, fazemos isso: “Compre algo gostoso”, “Vamos comer algo gostoso para celebrar”. E está tudo bem, não estou questionando isso. Meu objetivo é observar.

E essa é uma diferença importante do livro: ele não impõe regras no sentido de “pare de comer isso, não coma mais aquilo”.

Exato. Não diz isso, e ainda bem que não diz. Eu tive muito medo de lançar este livro. Eu o pari duas vezes: primeiro em uma edição independente e depois quando tive a oportunidade de levá-lo a editoras para ampliar seu alcance. Morri de medo, literalmente fazia terapia por causa disso. Por quê? Porque os seres humanos tendemos a nos polarizar. Então, logo surge: “Ah, então ela é a favor de que todos sejam gordos”. E não é por aí também. Minha mensagem é o autoconhecimento. Não faço parte de nenhuma associação nem levanto nenhuma bandeira, exceto essa: a do autoconhecimento. E não há receitas.

Você também faz uma ressalva que considero central: você não romantiza a gordura, nem nega que o sobrepeso possa trazer consequências para a saúde.

Exato. Não quero romantizar a gordura nem me colocar no lado oposto para julgar as pessoas com sobrepeso sem observar o contexto. Há alguns meses, eu estava cansada, com neblina mental, calores. Fui consultar e estava na pré-menopausa. Fizeram três ou quatro páginas de exames, endocrinologista e tudo, e o que apareceu foi vitamina D baixa. Então pensei: “Que interessante isso”. Obviamente não é a regra, mas o quanto julgamos uma pessoa gorda como se automaticamente tivesse uma patologia? E nem sempre é assim. Há muitas razões pelas quais o corpo engorda: retenção de líquidos, pré-menopausa, diferentes condições. Nem tudo responde a uma explicação simples.

Outra parte forte do livro é quando você fala sobre como o sobrepeso pode moldar os vínculos sociais e afetivos, mesmo desde idades muito jovens.

Sim, totalmente. No relacionamento, por exemplo, muitas vezes aparece essa ideia de que é preciso agradecer. Como quando te diziam “agradeça por ter um emprego”, bem, “agradeça por ter um marido”. E também uma atitude mais servil para agradar. Se você começa a viver isso muito jovem, depois te acompanha, já faz parte de você. É uma máscara. Existe esse estereótipo do “gordo simpático”, que é um lugar onde eu estive e ao qual caio com frequência. Essa necessidade de compensar o que supostamente está errado ou parece errado, ou de compensar o julgamento alheio.

Aí você relaciona sobrepeso e trauma.

Sim. Não posso deixar de falar que a maior parte das pessoas com sobrepeso ou transtornos alimentares viveu situações traumáticas, fortes ou nem tanto. Considero o trauma como uma situação externa que a pessoa não conseguiu processar e então seu sistema nervoso teve que agir de determinada maneira. Não é à toa que, quando estamos estressados — muitas pessoas, não todas, mas eu me reconheço —, abrimos a geladeira para ver o que podemos comer. O ataque de comer, a ansiedade por comer, aquele nervosismo: o que é isso?, o que reflete?, de onde vem esse comportamento do sistema nervoso quando aparentemente não há nada que o esteja desestabilizando? No entanto, há uma memória corporal que está ali ativando algo.

No livro você deixa claro qual é sua formação, e aparece uma ferramenta que hoje circula muito mais na conversa pública: as constelações. Como você chegou até elas e o que entende por constelar?

Eu me formei primeiro como comunicadora social. Depois fiz UTU, estudei dois anos de comunicação, como cantava criei minha primeira escola de música e dei aulas de música durante 20 anos. Fiz alguns anos do IPA, fiz coaching em outra escola e uma formação na Argentina de coaching educacional para poder ensinar melhor. Sempre me interessei pelo comportamento humano. Não fiz psicologia e vou confessar: na minha família diziam que os psicólogos eram todos loucos, então não queria ir contra esse mandato. Em uma ruptura amorosa comecei terapia convencional, mas alguém me disse para experimentar outra ferramenta. Isso foi há 16 anos. Comecei a ir e percebi que me dava muitas respostas, que algo em mim mudava. Muito tempo depois me interessei em me formar. Fiz isso há 13 anos no centro Bert Hellinger. Já tinha uma escola de música e um salão de festas; minha área não era essa de forma alguma. Mas novamente comecei a sentir que minha vida não estava alinhada com o que me fazia bem.

E o que são, então, as constelações?

São uma ferramenta que permite ver uma situação do presente levando em conta o contexto. Somos parte de muitos sistemas e o principal é o familiar, porque é ali que aprendemos os valores, a ideia de mundo, sentimos o apego, as feridas da infância. Tudo isso nos marca por muito tempo. Então, quando uma pessoa traz um problema do presente, o que vemos é qual é o impacto da família ou de outros fatores nessa situação, o que está impedindo que ela tenha uma resposta criativa diferente. É aquilo que muitas vezes as pessoas dizem: “Sempre escolho o mesmo tipo de parceiro”, “Sempre acontece a mesma coisa comigo”. Bem, o que há ali?, que lealdade está por trás?

Aí também aparece um medo frequente: o de usar a família para distribuir culpas.

Sim, claro. Mas se a metodologia for bem usada e o constelador bem formado, a constelação passa por várias etapas. Primeiro, poder ver o problema em nível inconsciente, o que chamamos de “ponto cego”: a quem a pessoa está sendo leal ou onde começou o problema em nível sistêmico. Pode aparecer uma mãe, por exemplo. O primeiro sentimento instintivo é culpá-la. Mas o passo seguinte é compreender que essa pessoa também é um elo de um colar e que nós temos a possibilidade de estar no aqui e agora e fazer algo novo com isso. Se fizermos uma consideração responsável e completa, a pessoa não sai distribuindo culpas.

Uma pessoa uma vez me disse: “Antes gorda, morta”.

E esse olhar volta ao tema do sobrepeso?

Sim, totalmente. A família tem muito a ver, e também a sociedade e o estrato social. Veja que há lugares onde ser gordo é fantástico e outros onde ser gordo é o pior. Uma pessoa uma vez me disse: “Antes gorda, morta”. E pensei: “Que forte o que você está dizendo, ouça-se”. Isso me impactou muito. E ela me respondeu: “Olha que muita gente pensa assim”. Então você entende que há um mandato muito profundo.

Nessa linha, hoje surgiram novos medicamentos para emagrecer e um discurso muito forte em torno de uma possível solução rápida.

Sim, e aí é preciso ir com calma. É como essa ideia de ir ao médico buscar a pílula mágica. Surge outro conceito, que é o pensamento mágico. Estou com dor de cabeça, tomo um analgésico e já não dói, mas sem me perguntar o que fez com que doesse, qual é a tensão, qual é a necessidade do meu corpo, o que estou negando. Então, além de tomar esses medicamentos ter consequências e não ser algo inofensivo — está à vista, já há provas de muitas situações físicas em consumidores —, acho que estamos mais do mesmo. A dieta mágica é apenas mais um produto que alimenta uma indústria multimilionária.

Para encerrar, voltemos ao início: ao abraço. O que seria se abraçar, concretamente, nesse contexto?

Acho que tem a ver com podermos nos olhar com mais amor. Nosso corpo responde aos estímulos. É tão equilibrado, tão natural. Quando você bate em um músculo, o músculo inflama: é natural. Então me pergunto de que forma nos golpeamos tão duramente para precisar de corpos que ocupem espaço, que sejam vistos. Isso é complexo de dizer, mas é importante que se saiba. Em um dos livros que cito, O corpo guarda as marcas, de Bessel van der Kolk, o autor menciona estudos sobre trauma muito impactantes. Então eu me pergunto: como são os corpos dessas vítimas, se esses corpos não precisam perder sensualidade para afastar os perpetradores ou se tornar maiores para absorver esses impactos. Não tenho uma resposta fechada. Sim, tenho muitas perguntas. Algumas encontrei através da minha própria vivência, e acho que cada um, fazendo boas perguntas, pode encontrar boas respostas.

O livro

Grijalbo

Grijalbo

Um guia emocional e prático para se reconciliar com seu corpo e construir uma relação amorosa consigo mesma.

Em Abraça teu corpo, Rosana Malvido Giosa oferece um percurso sensível e profundo pelo vínculo que mantemos com nosso corpo. A partir de sua experiência como coach, consteladora e acompanhante emocional, ela convida a revisar as ideias herdadas sobre beleza, peso e valor pessoal.

Com uma linguagem clara, calorosa e empática, a autora propõe exercícios de reflexão, relatos pessoais e ferramentas práticas para curar a relação com o corpo e a autoimagem. O livro combina narrativa íntima e guia de bem-estar com o objetivo de ajudar as leitoras a aceitar sua história, reconectar-se com suas emoções e abraçar seu próprio processo de mudança.

Editora: *Grijalbo*

Por María Noel Domínguez