Contenido creado por Gerardo Carrasco
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Uma esperança humilde

Fim do debate? Apresentam documento que comprovaria a origem uruguaia de Carlos Gardel

08.01.2026 10:08

Lectura: 4'

2026-01-08T10:08:00-03:00
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Um documento do Registro Civil, certificado por meio de ata notarial, sustenta a hipótese de que Carlos Gardel nasceu no Uruguai. O material foi apresentado recentemente pelo coletivo Gardel Rioplatense e afirma que, em 1920, o cantor se declarou uruguaio perante o Consulado do Uruguai em Buenos Aires. Ele o fez em “um ato voluntário e pessoal” que, segundo os pesquisadores, constitui a prova documental mais consistente conhecida até agora sobre sua identidade.

A informação foi divulgada pelo músico Gustavo Colman, integrante do coletivo, durante uma entrevista concedida dias atrás ao programa de rádio Informativo Carve del Mediodía. Na entrevista, ele explicou o alcance jurídico da descoberta e adiantou que o documento será apresentado à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Comisión Gardel Rioplatense

Comisión Gardel Rioplatense

De acordo com o informado, o registro integra um livro oficial do Registro Civil uruguaio que reúne mais de mil inscrições correspondentes a cidadãos uruguaios que, no início do século XX, se documentaram em Buenos Aires por não possuírem papéis formais. Nesse contexto, em 1920, Gardel compareceu ao Consulado do Uruguai e registrou dados relacionados à sua identidade, como data e local de nascimento, nacionalidade e filiação. “É um ato personalíssimo. Ninguém pode declarar por ele nem alterá-lo após sua morte”, afirmou Colman.

O trâmite foi realizado quando Gardel tinha cerca de 30 anos, antes de alcançar a projeção internacional que o tornaria uma figura central do tango. A partir desse registro, o artista pôde posteriormente obter outros documentos, entre eles a cidadania argentina e o passaporte que utilizou em sua carreira artística.

Para o coletivo Gardel Rioplatense, este documento descarta de forma conclusiva a tese que localiza o nascimento do cantor em Toulouse, França. “Gardel nunca foi francês, não foi em vida e não pode ser agora”, afirmou Colman, que definiu essa versão como uma “construção fraudulenta” posterior à morte do artista.

Segundo os pesquisadores, a identidade francesa foi consolidada posteriormente a partir de documentos que consideram inconsistentes e associados a interesses econômicos, enquanto a vontade expressa por Gardel em vida foi repetidamente questionada. “Os documentos franceses se sustentam com alfinetes; este é um registro oficial, original e verificável”, afirmou.

O documento conta com certificação notarial e permanece guardado à espera de uma eventual perícia técnica, que poderia ser solicitada pelo Estado uruguaio. O expediente circulou por diferentes órgãos oficiais e retornou recentemente à Presidência da República.

Comisión Gardel Rioplatense

Comisión Gardel Rioplatense

Colman explicou que o objetivo é que o Estado uruguaio não conteste o reconhecimento do documento e permita o avanço para uma definição jurídica. Nesse sentido, o coletivo planeja apresentá-lo à CIDH sob o argumento de que a modificação da identidade de uma pessoa falecida viola direitos fundamentais. “A discussão não passa por um DNA, que sempre foi um caminho cheio de obstáculos, mas pela identidade legal e pela vontade expressa em vida”, afirmou.

Gardel Rioplatense é formado por pesquisadores e admiradores de vários países, entre eles Uruguai, Argentina, Espanha, Colômbia e França. O grupo afirma que não se trata de uma disputa de caráter nacionalista, mas de reivindicar Gardel como uma figura rioplatense, com nacionalidade uruguaia e cidadania argentina. “Gardel escolheu duas pátrias e é um fenômeno cultural que nos pertence a todos”, concluiu Colman.

Hormônios e DNA

Em 2013, o matemático uruguaio Eduardo Cuitiño publicou o livro Gardel, el muerto que habla, obra na qual, por meio de uma abordagem científica, oferecia evidências que apoiavam a tese da nacionalidade uruguaia do cantor.

Entre outros elementos, ele apontava uma possível deficiência hormonal no artista e sugeria a possibilidade de comparar esse “padrão hormonal” com os restos de integrantes da família Escayola em Tacuarembó, à qual Gardel pertenceria.

Cuitiño reconhece as dificuldades de obter DNA dos restos de Carlos Gardel, especialmente considerando as terríveis circunstâncias de sua morte. No entanto, anos atrás, ele defendeu que se tentasse obter uma amostra — algo que nunca foi aceito na Argentina — e até apoiou uma campanha para reunir adesões.