Por María Noel Domínguez
manoeldominguez
Durante quatro dias, em um terreno em Hampshire, a Comunidade Muçulmana Ahmadia recebeu delegações de mais de 100 países. O evento combinou espiritualidade, ação social, denúncia da perseguição religiosa e compromisso com a paz global.
Jalsa Salana
Nos arredores de Alton, uma localidade rural de Hampshire, viveu-se uma cena repleta de simbolismo: mais de 46.000 muçulmanos de todo o mundo aclamaram o líder espiritual de sua comunidade, Hazrat Mirza Masrur Ahmad, antes de mergulharem em um silêncio reverente para dar lugar à oração do zohr, a segunda do dia segundo o Alcorão. A cena ocorreu em uma megatenda monumental dentro de um terreno de 11 hectares, onde foi realizada uma nova edição da Jalsa Salana, o maior encontro anual da Comunidade Muçulmana Ahmadia e hoje a maior convenção muçulmana da Europa Ocidental.
A Jalsa Salana é muito mais do que um encontro religioso. É um ato de fé, sim, mas também uma manifestação internacional de convivência, diálogo, identidade, juventude, serviço e denúncia. Lá se encontram orações, discursos, bandeiras, tendas, voluntariado e emoções, em um ambiente que consegue combinar solenidade espiritual e compromisso com a realidade global.
Uma cidade espiritual erguida por milhas.
Durante três dias, entre 26 e 28 de julho, o evento funcionou como uma cidade em si mesma. Mais de 210 tendas foram instaladas para alojamento, refeitórios, cozinhas, salas de reunião e banheiros, tudo coordenado por mais de 7.000 voluntários vindos de diversas partes do mundo. Na padaria do terreno, são assados 100.000 pães pita por dia para alimentar os participantes com o mesmo menu: arroz, frango e cordeiro em molho temperado.
Uma particularidade deste ano foi a destacada presença de jovens: 27% dos participantes eram da geração Z. Muitos deles participam ativamente nas tarefas de organização, servindo como voluntários em estações de trem, pontos de boas-vindas ou serviços de limpeza. A comunidade promove múltiplas iniciativas para este grupo etário, como o canal “Young Imam”, que responde perguntas sobre o islã nas redes sociais, ou o programa “Bread for Britain”, que assa pão para doar a bancos de alimentos.
Fé, identidade e pertencimento.
O evento também começou com um gesto político-religioso de forte carga simbólica: o hasteamento conjunto da bandeira do Reino Unido (Union Jack) e da bandeira da Comunidade Ahmadia. "O amor pela pátria é parte da fé", lembram os organizadores, e essa lealdade aos países de adoção é um pilar para os ahmadis.
Durante o evento, o Califa Masroor Ahmad instou os muçulmanos a “buscar o aprimoramento de suas nações” e ser “fonte de paz para a sociedade”. Ele foi acompanhado por líderes religiosos e políticos, como a deputada Dame Siobhain McDonagh, o bispo de Winchester, Philip Mounstephen, e representantes do Vaticano, entre outros.
“Ser britânico e ser muçulmano não é contraditório”, destacaram os oradores, defendendo a educação precoce em valores de serviço, empatia e compromisso social.
Nos matam, nos torturam, nos discriminam. Mas não devolvemos ódio. O terrorismo não é islã.
Uma comunidade pacífica.
Fundada em 1889 na Índia por Hazrat Mirza Ghulam Ahmad, que se proclamou o mahdi (messias) esperado pelo islã, a Comunidade Ahmadia promove um islã baseado na não violência, fraternidade universal e amor inter-religioso. Essa afirmação lhe rendeu o rejeição dos clérigos tradicionais, que a declararam herética.
Jalsa Salana
Desde então, os ahmadis têm sido perseguidos em países como o Paquistão, onde uma emenda constitucional os declara "não muçulmanos" e lhes proíbe, sob ameaça de prisão, rezar, pregar ou se identificar com o islã. Eles não podem peregrinar a Meca nem chamar mesquitas seus templos. Estão marcados como “ahmadis” até mesmo em seus passaportes. Muitos foram assassinados, presos ou deslocados.
Durante seus discursos, o huzur foi enfático em sua condenação à violência e à radicalização. "Nos matam, nos torturam, nos discriminam. Mas não devolvemos ódio. O terrorismo não é islã", disse. Ele também denunciou a situação em Gaza, criticou o grupo Hamas por silenciar os ahmadis na Faixa e lamentou a tibieza dos governos islâmicos diante da crise humanitária palestina.
Mulheres: protagonismo, respeito e educação.
Um dos momentos mais significativos do evento ocorreu na tenda exclusiva para mulheres, onde mais de 18.000 participantes aguardavam com emoção a chegada de seu líder espiritual. Lá, Hazrat Mirza Masroor Ahmad dedicou-lhes um discurso centrado no status da mulher no islã, destacando seus direitos dentro da comunidade e o papel essencial que ocupam.
Nesse espaço, sem presença de homens para garantir conforto e autonomia, as mulheres coordenam a segurança, a assistência médica, as câmeras e toda a logística interna. Após o discurso, muitas aproveitam para explorar um extenso bazar com roupas exclusivas ou conversar sobre futuras uniões matrimoniais.
A educação feminina tem um lugar privilegiado na comunidade Ahmadia. Na Jalsa, destacam-se especialmente as mulheres graduadas em universidades de todo o mundo, independentemente do país ou do curso. A formação e o conhecimento são considerados pilares fundamentais de sua liberdade, dignidade e liderança.
@portalmvd ?? Miles de fieles, un solo mensaje: paz y espiritualidad en el ?? de Londres #jalsasalana #jalsauk #espiritualidad #fe #musulmanes@Jalsa Salana UK #JalsaUK ? original sound - Montevideo Portal
Despedida de paz e esperança.
No encerramento do evento, o huzur retirou-se caminhando entre milhares de homens que choravam após a oração do asr, enquanto milhares de mulheres faziam o mesmo em sua tenda. O silêncio, os abraços e os rostos emocionados marcaram a despedida.
Nas ruas do terreno, ainda se ouviam os ecos do lema central da comunidade: “Amor para todos, ódio para ninguém”.
Por María Noel Domínguez
manoeldominguez
Acerca de los comentarios
Hemos reformulado nuestra manera de mostrar comentarios, agregando tecnología de forma de que cada lector pueda decidir qué comentarios se le mostrarán en base a la valoración que tengan estos por parte de la comunidad. AMPLIAREsto es para poder mejorar el intercambio entre los usuarios y que sea un lugar que respete las normas de convivencia.
A su vez, habilitamos la casilla [email protected], para que los lectores puedan reportar comentarios que consideren fuera de lugar y que rompan las normas de convivencia.
Si querés leerlo hacé clic aquí[+]