Em agosto de 1992, durante a reforma de uma antiga residência na localidade de Barcarrota (Badajoz, Espanha), foram encontrados emparedados dez livros impressos e um manuscrito do século XVI.
A notícia só foi divulgada em dezembro de 1995, quando a Junta de Extremadura os adquiriu comprando-os dos proprietários da residência. Os exemplares puderam ser vistos publicamente pela primeira vez na exposição organizada no Museu Extremenho e Ibero-americano de Arte Contemporânea de Badajoz, em janeiro de 1996.
Agora, um ensaio fruto de anos de pesquisa revela a identidade do proprietário desses livros que permaneceram por séculos entre as paredes da propriedade.
O estudo "A Biblioteca Oculta de Barcarrota e o nobre português Fernão Brandão", do doutor Pedro Martín Baños, doutor em Filologia Hispânica, foi publicado recentemente pela Universidade de Extremadura e pela Universidade Autônoma de Barcelona.
"Este livro trata sobre a conhecida 'Biblioteca Oculta de Barcarrota', uma coleção de livros de grande valor histórico e literário" encontrada em 1992 "escondida atrás da parede de uma casa em Barcarrota, Badajoz, que data do século XVI e que era considerada heterodoxa, proibida e mágica", explica o autor em uma nota sobre o livro.
Junta de Extremadura
A origem da "biblioteca oculta de Barcarrota", considerada um "tesouro bibliográfico", foi um enigma que o estudo agora publicado acredita ter resolvido.
“A hipótese defendida neste trabalho é precisamente que a pessoa que escondeu os livros emparedados foi o nobre português Fernão Brandão, perseguido pela Inquisição em seu país, que deve ter passado algum tempo em Roma e depois terminou em Barcarrota”, afirma Pedro Martín Baños.
A biblioteca descoberta em 1992 incluía 12 volumes, um manuscrito e um elemento-chave para identificar Fernão Brandão: um amuleto de papel com uma dedicatória que continha um nome, um lugar e uma data: Fernão Brandão, de Évora; Roma, 23 de abril de 1551.
Com base nessa inscrição, Pedro Martín Baños concentrou sua pesquisa nos registros que levavam o nome de Fernão Brandão e identificou o nobre português nos arquivos da Inquisição em Évora, onde foi alvo de várias acusações e denúncias entre 1547 e 1549, e posteriormente em Barcarrota, em documentos relacionados a transferências de propriedades na localidade.
Fernão Brandão foi acusado pelo Tribunal da Inquisição de Évora de "impiedade e irreligião" e "sodomia", por possuir "um livro de sodomia", encadernado como se fosse religioso, "no qual se representa homens cavalgando contra a natureza, uns contra os outros por trás".
Segundo as acusações da Inquisição portuguesa, citadas no estudo agora publicado, ele comia peixe e carne todas as sextas-feiras, domingos e outros dias festivos religiosos, nunca rezava, jogava bola com os servos em vez de ir à missa, desaparecia da cidade durante a Quaresma para se refugiar em uma casa no campo, não se confessava, blasfemava contra Deus e os santos, e possuía pequenas figuras de metal com as quais praticava magia e rituais de bruxaria.
Fernão Brandão exilou-se em Castela "devido aos excessos que cometeu em seu reino", segundo genealogistas portugueses citados no estudo.
O autor deste livro pretendeu provar que o emparedamento não foi um ato apressado nem arbitrário, e que em cada peça podem ser percebidas uma ou várias razões concretas que a tornavam suspeita. Tudo responde a uma conjuntura histórica muito específica, entre o final de 1559 e o início de 1560, após a publicação do índice de livros proibidos do inquisidor Valdés.
A joia bibliográfica da coleção é O Lazarillo de Tormes, impresso em Medina del Campo (Valladolid) em 1554, edição desconhecida até o momento do achado, e que foi a primeira a ser editada fac-similarmente em julho de 1996.
O incomparável tesouro bibliográfico de Barcarrota é um objeto de estudo tão fascinante quanto promissor, que certamente ainda não esgotou as surpresas que pode nos reservar no futuro.
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