Por Patricia Vicente
Nas últimas semanas, as redes sociais no Uruguai e em vários países da América Latina se encheram de caricaturas geradas pelo ChatGPT. O 'jogo' consiste em pedir à inteligência artificial que revise tudo o que sabe sobre nós e nosso trabalho e que nos 'presenteie' com um desenho que mostre — nada mais, nada menos — como somos. Algo totalmente inofensivo, se não fosse pelo fato de continuarmos entregando nossas informações e dados.
É verdade que o ChatGPT utiliza informações que já possui para gerar a caricatura; não solicita novos dados. Mas também é verdade que esse tipo de atividade fomenta a sensação de 'confiança' e o uso como se fosse um confessionário ou psicólogo, algo que cresce dia após dia com essas ferramentas.
A moda das caricaturas no ChatGPT hipnotizou adultos e crianças. Não parece haver uma diferença substancial quanto à disposição de abrir a privacidade em troca de uma gratificação instantânea. Tampouco há clareza sobre os riscos de que uma ferramenta tecnológica desse tipo se torne nosso novo 'confidente'.
La “ganancia” inmediata
Consultado sobre o tema, Roberto Balaguer, psicólogo especializado na influência da Internet na sociedade atual, explicou ao Montevideo Portal que esse fenômeno se sustenta em dois pontos-chave: por um lado, um ganho tangível, real e socializante, que é o desenho para compartilhar. Por outro lado, um risco difícil de dimensionar, que poderia causar problemas — se é que causará — apenas a médio ou longo prazo.
'Pesa muito mais o ganho potencial do que as perdas potenciais, que não são visíveis e são a médio prazo. Enquanto isso, a caricatura é tangível, é agora', disse.
O especialista também indicou que 'a questão dos dados tem duas faces bem distintas: por um lado, estão os dados mais duros, mais estruturados (como o número de identidade, endereço ou telefone), com os quais há um maior cuidado'. 'Mas com todos os outros, que não são estruturados e que, na verdade, são os mais valiosos, porque falam de como cada um é e de seus interesses, não há consciência.'
De fato, ele destacou que o maior uso dado hoje à IA é como 'psicólogo' e assegurou que 'se as pessoas tivessem consciência de tudo o que estão entregando e do que poderia ser feito com tudo isso no futuro, o uso seria desativado'. Ao confiar situações pessoais, o usuário fica 'vulnerável'. Diferentemente de um profissional humano, que está protegido pelo sigilo profissional e pela confidencialidade legal, a IA é um sistema onde essas garantias não são totais.
El narcisismo digital y la mirada del otro
Em relação a esse 'ganho' mencionado por Balaguer, é possível questionar o quão valiosa pode ser uma caricatura gerada por uma ferramenta à qual podemos indicar o que e como queremos que nos mostre. Mas, no final das contas, 'é um material socializante, que pode ser compartilhado, permite estar dentro da tendência e também me permite medir ‘como me veem’', disse.
'É parte desse culto à personalidade, de estar o tempo todo olhando para o próprio umbigo. Porque, além disso, dependendo de como me mostra, decido se compartilho ou não', acrescentou.
Balaguer apontou que essa atividade é como ter 'um feedback sobre si mesmo e, em certo ponto, é bastante narcisista'. Nesse sentido, ele lembrou que, quando tirou férias na praia este ano, chamou-lhe muito a atenção o estado de 'selfie permanente' de muitas pessoas e terminou refletindo que, 'no final das contas, para tudo o que está em jogo, isso das caricaturas é bastante inofensivo'.
Para o especialista, o risco real está em 'tudo o que é opaco no manejo dos dados', sobretudo no uso que se dá à IA (cada vez mais) como terapeuta. 'Você está entregando toda a sua vida e privacidade a um sistema que tem riscos claros', destacou.
Juego inocuo que sirve de alerta
Esse jogo das caricaturas pode se tornar uma boa oportunidade para alertar sobre os dados que estamos confiando diariamente às diferentes ferramentas de inteligência artificial e 'as vulnerabilidades potenciais que isso gera'.
'Amanhã, alguém pode se arrepender de tudo o que confiou. Que há um perigo, é claro, mas todo mundo ignora isso em prol de aproveitar os benefícios que essa ferramenta oferece hoje', afirmou.
Consultado sobre a importância de alertar crianças e adolescentes sobre o uso dessas plataformas e os dados que fornecem, Balaguer disse que, embora isso faça parte da educação curricular no Uruguai, no âmbito de disciplinas como Cidadania Digital, 'sempre é necessário insistir'.
'A adolescência é uma etapa de assumir riscos, de pouca inibição. E a IA é cada vez mais o lugar onde vão fazer perguntas que não fazem aos adultos, talvez por falta de disponibilidade dos adultos ou por falta de confiança', afirmou.
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