Contenido creado por María Noel Dominguez
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Esse bolo alfajor não se come sozinho.

Betsubara: o “segundo estômago” explica por que sempre há espaço para a sobremesa.

03.01.2026 08:52

Lectura: 3'

2026-01-03T08:52:00-03:00
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Embora estejamos cheios, o corpo e o cérebro encontram uma forma de abrir espaço para algo doce. No Japão, há uma palavra para descrever esse fenômeno: betsubara, que literalmente significa “outro estômago”.

É uma cena comum em qualquer almoço de família ou reunião: alguém diz “não aguento mais”... mas quando chega a sobremesa, misteriosamente “arranja espaço”. Pura gula? Uma desculpa? Uma brincadeira compartilhada? Na verdade, há mais ciência e cultura por trás desse ato que parece tão simples.

O "estômago à parte" que todos temos.

“Betsubara” não implica que exista um segundo estômago real, mas remete a uma sensação que muitos conhecem: o espaço reservado exclusivamente para o doce, mesmo após uma refeição abundante. E embora essa expressão tenha se originado no Japão, sua explicação tem fundamentos fisiológicos e psicológicos.

Segundo explicou a professora Michelle Spear, especialista em Anatomia da Universidade de Bristol, ao meio BBC Mundo, o estômago humano tem a capacidade de se adaptar e expandir graças a um processo chamado acomodação gástrica. Durante uma refeição, os músculos do estômago relaxam para acomodar mais alimentos, permitindo continuar comendo mesmo quando sentimos que “não cabe mais nada”.

Mas além do corpo, o cérebro tem muito a ver.

Fome hedônica e recompensa cerebral.

O doce não apela apenas ao paladar: ativa o sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina e gerando uma sensação de prazer. Isso é conhecido como “fome hedônica”, que não responde a uma necessidade energética, mas sim a um desejo emocional.

Mesmo que estejamos fisicamente saciados, esse estímulo prazeroso pode “anular” o sinal de saciedade. Ou seja, embora não precisemos de mais comida, queremos aquele sabor final que encerra a experiência com um toque de prazer.

A isso se soma outro fenômeno chamado saciedade sensorial específica: ao comer um prato principal, o cérebro vai “se cansando” daquele sabor. Mas se aparece um sabor novo —como um pudim, uma mousse ou uma fatia de bolo— o interesse se renova e o apetite é reativado.

Mais que uma desculpa, uma resposta natural.

Assim, embora não tenhamos um “estômago extra”, a experiência do betsubara combina mecanismos físicos e emocionais que tornam muito real essa sensação de “arranjar espaço” para a sobremesa. Não é apenas um capricho: é a forma como corpo e mente celebram a comida... e a vida.

Da próxima vez que sentir que não aguenta mais, mas ainda assim disser “bom, só um pouquinho”, pode dizer com propriedade: é meu betsubara falando.