Canção de esquina

Arquitetura defensiva ou medida de exclusão? Uma grade no bairro Cordón gerou polêmica.

A imagem foi publicada pela ex-diretora do Teatro Solís e imediatamente gerou reações divergentes.

05.05.2026 13:07

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A colocação de grades, concertinas, fios eletrificados e todo tipo de parafernália “dissuasória” não é um fenômeno novo em Montevidéu, mas sim crescente. A tendência de “se cercar” começou na década de 1990 e desde então só tem aumentado, dado que a realidade social da cidade não favorece o contrário.

A instalação desse tipo de estruturas tem sido objeto de considerações de todo tipo, desde as sociológicas até as puramente estéticas. Também a legislação precisou se adaptar ao aumento da instalação de grades. Em Montevidéu, em novembro de 2024, ocorreu um caso que marcaria um divisor de águas nesse sentido: um jovem de 30 anos morreu após tropeçar e cair sobre uma barra metálica com pontas afiadas situada em baixa altura, provavelmente com o objetivo de dissuadir moradores de rua ou transeuntes de se sentarem naquele local.

Agora, um novo e curioso exemplo de “arquitetura defensiva” gerou controvérsia nas redes sociais.

A disputa começou a partir de uma publicação de Daniela Bouret, historiadora e comunicadora cultural que anos atrás dirigiu o Teatro Solís. Em seu perfil no Facebook, Bouret compartilhou uma foto tirada na esquina das ruas Mario Cassinoni e Charrúa.

Ali, e como se pode ver na imagem, os moradores de um prédio instalaram uma grade que impede o acesso a uma parte da calçada sob o imóvel.

“Essa grade na esquina não protege nada: não há janela, não há acesso, não há vida. No entanto, colocaram uma grade”, escreveu a profissional.

“Isso não é segurança, isso se chama arquitetura defensiva, mas da pior, aquela que exclui”, acrescentou.
“E não venha me dizer que é por causa das pessoas em situação de rua que poderiam se estabelecer ali, ou que não é minha casa. Porque quando a cidade é construída assim, deixa de ser um lugar de encontro e se torna a versão mais triste, um dispositivo de rejeição”, concluiu.

A publicação gerou imediatamente inúmeras reações e comentários. Enquanto alguns internautas concordaram com o que Bouret apontou, outros sugeriram que a grade provavelmente seria resultado do cansaço dos moradores com os “acampamentos” de pessoas em situação de rua.

“Se esse espaço estivesse sem grades, haveria pelo menos 3 ou 4 moradores de rua dormindo ali”, comentou um internauta, que depois “adaptou” ao contexto local um raciocínio clássico da xenofobia: “se tanto se preocupa com essas pessoas, sugiro que as leve para sua casa e conviva com elas”.

“O problema não é a grade do escândalo, o escândalo é que, como sociedade e como governo, não encontramos uma solução digna para as pessoas em situação de rua e para os moradores de toda Montevidéu”, considerou outra usuária da rede.

“É muito feio até que aconteça com você. Quando montam acampamentos e você tem que ligar todos os dias para a polícia, prefeitura, MIDES ou o que for para retirar pessoas que vivem, comem e fazem suas necessidades ali, não resta outra alternativa senão usar esse tipo de medida”, comentou outra.

A discussão, já acalorada, escalou quando a conta do X @uytendencias replicou a imagem e incluiu variantes “sob demanda” para os usuários.

Independentemente da pertinência ou não da colocação de grades em uma esquina, a grande quantidade de comentários que as postagens receberam é um sinal evidente de que se trata de um tema que, de uma forma ou de outra, mobiliza a sociedade.