Contenido creado por Gerardo Carrasco
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Amor constante além

“Parar o tempo”: ela tinha poucos dias de vida e suas filhas lhe deram um presente eterno.

A família viajou mais de 4.000 km em busca do mar tão desejado pela mulher. Apesar dos fortes sedativos, ela ficou profundamente emocionada.

31.03.2026 11:25

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2026-03-31T11:25:00-03:00
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“O esquecimento é a última tumba”, e não a morte, advertiu há quase trinta anos o jornalista e escritor uruguaio Daniel Figares, que faleceu em outubro passado.

De forma semelhante, o argentino Jorge Luis Borges aventurou a ideia de que o verdadeiro fim de uma pessoa não ocorre com sua morte, mas quando morre a última pessoa que a viu viva.

Acontece que o ser humano é o único animal na Terra que tem consciência de que vai morrer, e está em sua essência — refletida na arte, na filosofia e em tudo o que faz — lutar contra seu caráter efêmero ou evitar — como também escreveu Borges, “o esquecimento que seremos”.

Uma demonstração cabal disso foi a agridoce aventura recentemente empreendida pela família de Sônia Calegário, uma brasileira que no ano passado, aos 51 anos, foi diagnosticada com câncer terminal.

A família reside em Rondônia, estado fronteiriço com a Bolívia, e muito longe das belas praias atlânticas de seu país. Ao receber a triste notícia, suas filhas decidiram gastar até a última moeda em uma aventura final: levar sua mãe para ver o mar novamente, do qual passou décadas afastada e sempre desejou. Também contrataram uma fotógrafa para que a experiência se transformasse em uma memória eterna.

Priscila Letícia Calú

Priscila Letícia Calú

“Quando descobrimos a metástase, minha irmã me disse: ‘Marcela, vamos fazer uma viagem em família porque pode ser a última. Então temos que aproveitá-la ao máximo e fazer tudo o que ela gosta’. E ela gosta do mar, de ouvir o som das ondas. Fizemos a viagem, realizamos uma sessão de fotos para imortalizar e aproveitar ao máximo aquele momento, porque sabíamos que seria o último”, expressou Marcela, outra das filhas.

Assim, em outubro do ano passado, a família percorreu mais de 4.000 quilômetros até o estado de Alagoas para realizar o desejo de Sônia de voltar ao mar, um ambiente que ela valorizava especialmente. Segundo relatou sua filha Débora, a viagem foi realizada apesar das limitações econômicas: “Deus abriu as portas de uma maneira extraordinária”, disse em declarações recolhidas pelo Diário do Nordeste.

Durante a estadia, Sônia enfrentava um quadro avançado da doença, com dores e outros sintomas associados, e permaneceu sob efeito de morfina durante a sessão fotográfica.

Pouco depois da viagem, o estado de saúde de Sônia se agravou e ela precisou ser hospitalizada. Sua mobilidade foi progressivamente reduzida e a dor intensificada. Ela faleceu no final de 2025, aos 51 anos. Deixou seu esposo, quatro filhos e dois netos.

Priscila Letícia Calú

Priscila Letícia Calú

Agora, meses após a morte de sua mãe, Marcela sente emoções conflitantes ao ver as fotos.

“É uma ferida dolorosa. Alguns dias olho para a foto e sorrio, outros choro. Alguns dias não quero acreditar. Minha mãe era minha amiga, era o melhor de mim neste mundo e sinto muita falta dela. É impossível não sentir saudades. Naquele dia [das fotos], eu queria imortalizar seu abraço caloroso, queria que o tempo parasse”, diz.

Na época das fotografias, ela estava grávida de seu primeiro filho, que sua mãe não chegou a conhecer.

Por sua vez, Débora diz encontrar certo alívio ao evocar aquele dia.

Priscila Letícia Calú

Priscila Letícia Calú

“Gostaria de guardar aquele momento em um frasco e revivê-lo repetidamente. Saber que a pessoa que você mais ama na vida vai morrer é triste, a dor é imensa. Há um vídeo, e quando a vejo me abraçando, a saudade alivia um pouco”, expressa.

Em sua publicação, a fotógrafa Priscila Letícia Calú lembrou com emoção o dia da sessão, no qual realizou um trabalho que não se parecia com nada que havia feito antes.

Priscila Letícia Calú

Priscila Letícia Calú

“Fotografar esta família foi, para mim, muito mais do que um trabalho. Foi uma experiência totalmente nova na fotografia. Foi um aprendizado constante. Compreendi que o mais importante é viver o presente, o agora, porque o passado já passou e ainda não temos o futuro. O que existe é este momento. E estas fotos são isso: um pedaço do presente que perdurará para sempre, guardado na memória e na história da família, para que as futuras gerações também saibam quem foram e o amor que existiu entre eles”, afirma.

"Foi um dia de longos abraços. Cada pessoa que a abraçava parecia estar tentando reter o tempo em suas mãos", conclui.